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terça-feira, 26 de março de 2013

"Viramos assessores de imprensa de nós mesmos."



Você já deve ter conhecido alguém que é legal na vida real, mas na internet é inconveniente. Aquela pessoa que posta fotos de cachorro abandonado, do parente no hospital, ou ainda de momentos íntimos. O contrário também é comum. Você conhece uma pessoa pela internet, seja porque ela é engraçada ou porque é amigo de algum amigo e que parece ser legal, mas quando encontra pessoalmente, o charme se vai. Esses desencontros passaram a fazer parte da nossa vida há pouco tempo: nossa identidade virtual foi colada em quem realmente somos socialmente.
Um sábio uma vez falou que “o twitter me fez gostar de pessoas que não conheço e o facebook me fez odiar pessoas que conheço há anos”. Na internet as pessoas se revelam de outra forma, e ainda há muito o que ser equilibrado para que a etiqueta social seja aplicada na vida virtual.
Muito desse descompasso está em poder criar uma persona arbitrariamente editada na internet. Eu escolho qual foto colocar no meu perfil, quais nuances ressaltar da minha personalidade, qual gosto por músicas ou filmes eu divulgarei e quais opiniões sobre os acontecimentos eu darei. Tudo pode ser meticulosamente calculado. Quem não tem noção do perigo que pode ser expor algo íntimo na internet (pelo fato daquilo nunca mais ser apagado), corre o risco de queimar sua imagem para sempre.
Penso que muito desse conflito é causado porque a internet preenche um vazio da solidão do mundo moderno. Ela te acostuma a ter novidades o tempo todo, a se mostrar e ser aceito pelos seus gostos. O like nada mais é que um abraço – e não fui eu que criei esse conceito. Você entra na lógica de se expor e ser aceito e precisa retroalimentar o processo o tempo todo. Viramos “sacos sem fundo” de carência.
Quem tem Instagram pode perceber isso claramente. Há sempre alguém fazendo algo mais legal que você, em uma casa mais bem decorada que a sua, comendo uma comida melhor que o seu jantar. Há até uma síndrome nomeada de ‘Fear Of Missing Out’ para definir esse descompasso: é como se sempre estívessemos deixando de viver uma vida maravilhosa o tempo todo.
Acredito portanto que as pessoas que se expõem erroneamente na internet estão tentando entrar nesse ritmo, criar pessoas interessantes, conviver socialmente numa posição de destaque, mas que estão claramente falhando. E isso é compreensível. É dificílimo se sair bem. São muitas ferramentas, estímulos. Uma hora é legal gostar de uma banda e minutos depois isso foi vencido e já ficou determinado que é ridículo.
Outro dia brinquei: “se você comeu e não tirou foto, essa refeição existiu?”, numa alusão à máxima filosófica “Se uma árvore cai na floresta mas não há ninguém por perto, ela faz barulho?”. Será que só faz sentido ir a um show se ele for instagramável, tuitável ou compartilhável? Quem nunca sentiu ansiedade de estar vivendo um momento e não poder compartilhar com uma dezena de outras pessoas, que atire a primeira pedra. Vivemos em uma lógica de sempre divulgar o que estamos fazendo para sermos admirados. Viramos assessores de imprensa de nós mesmos.

ADPT: Ana Labre 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Pseudos ou "mente abertas?".


Você tem cabeça aberta?

DE SÃO PAULO

Você tem cabeça aberta? Acusar alguém de ter cabeça fechada hoje em dia é uma ofensa pior do que xingar a mãe.
Hoje todos querem ter cabeça aberta. Um tema top para cabeças abertas é preconceito x práticas sexuais, e um lugar certo para deixar claro que você tem cabeça aberta é jantares inteligentes. Se você quer fazer sucesso num jantar desses, chame todo mundo que discorda de você de "ridícula".
Nesses jantares, as pessoas têm as opiniões certas sobre tudo; por exemplo, ninguém tem preconceito contra nada. Acho muito fofo gente que não tem nenhum preconceito contra nada.
No tema "práticas sexuais", o que percebemos, se formos um pouquinho além do senso comum, é que o "normal x patológico" ou "moral x imoral" é bastante relativo no tempo e no espaço. Isso significa que o que se acha imoral hoje amanhã pode não ser, e vice-versa. O mesmo para o que se acha patológico.
Quem busca um critério absoluto, sem variação histórica ou geográfica (a tal variação no tempo e no espaço de que falei acima), hoje em dia, se vê em maus lençóis. Além, claro, de dar atestado de ter preconceitos numa época em que ter preconceitos é pior do que matar a mãe.
Aliás, se não disse ainda, digo: acho fofo gente que não tem preconceito contra nada.
Um modo de se posicionar acerca dessa fronteira entre sexo normal x patológico ou moral x imoral é defender a ideia de que entre dois adultos tudo é permitido, se a prática for fruto de livre escolha (eis uma versão para mortais da tal autonomia kantiana).
Esse argumento até é válido, já que não sabemos mais nada sobre coisa nenhuma em moral (só mentirosos dizem que têm "princípios éticos"). Mas ele é problemático, já na definição de "adulto", porque ela também é relativa no tempo e no espaço. Um cara de 40 ficar com uma mina de 14 nem sempre foi visto como crime contra a infância.
Outra coisa problemática é a própria ideia de "livre escolha". Por exemplo, se você gosta de apanhar, talvez só goste mesmo quando seu parceiro ou parceira vai além do que você "permite", senão você não goza de verdade. Mas devo confessar que há algo de pueril em achar que "livre escolha" resolva o problema. Acreditar na ideia de "autonomia kantiana" (a tal da "livre escolha"), às vezes, também, é superfofo.
Vamos, porém, deixar de barato esses pequeníssimos detalhes e vamos a algo mais "significativo".
Faço uma proposta para seu próximo jantar inteligente. Claro, se você for um pobre engenheiro, nem pense em querer ir, a menos que sua mulher seja psicóloga --aí os donos da casa inteligente podem aceitá-lo. Se você for um cara e sua "mulher psi" for um cara também, aí a entrada é garantida.
Acho que, se você é o tipo de pessoa que quer provar que tem cabeça aberta, você deve discutir apenas o que lhe parece absurdo (ou "nojento", na linguagem de gente que tem preconceito). Mas não é isso o que acontece normalmente.
A moçadinha que tem cabeça aberta só gosta de discutir coisa que não põe em risco sua imagem de gente bacana. Falar mal de machista, racista, sexista, católico e evangélico é coisa de iniciante no ramo de discussões de verdade.
Lembre: o que hoje é doença ou imoralidade amanhã pode não ser.
Na verdade, imagino que em breve esses caras terão suas ONGs e defenderão também "safe sex". Como fazê-lo? Ensinando nas escolas a identificar fezes infectadas pela aparência e cheiro?
O que a gente fofa diria disso? Ainda sem preconceito? Perdeu o apetite? As ciências sexuais têm muito o que aprender.

ADPT: Ana Labre
Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".